este post é programado. para ir ao ar quando estivermos no lançamento. quando a lua estiver bem cheia no céu poluído.
trata-se do posfácio ao livro de poesia pequenos afazeres domésticos, da lilian aquino, publicado pela editora patuá.
a foto que ilustra o post é do antológico episódio prozac no prosecco – um dos acontecimentos mais importantes da poesia contemporânea jovem paulistana nos anos 00. confira as fotos de 2006 aqui
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———- Mensagem encaminhada ———-
De: ana rüsche
Data: 19 de julho de 2011 13:04
Assunto: posfácio
Para: Lilian Aquino
Cc: Editora Patuá
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abigail querida,
claro que isto tem formato de carta! o que vc supunha? aliás, é um e-mail em minúsculas, como compete a tudo que é afetivo. com cópia pro editor, quem teve que fundar uma editora inteira pra publicar este livro (poetas são exagerados – desconta essa edu, plis):
[calculo que, em breve, o e-mail será algo do passado e ficaremos em nosso lugar confortável de quem transpassou um século pra começar a se dizer gente em outro. e ser invariavelmente passado, que sina. crias dos anos zerados, os mesmos sempre apaixonados pelo futuro.]
- horrível este afazer doméstico, dona abigail!
como escrever dum livro cuja resposta só poderia vir na forma de zonas de silêncio, de lágrimas furtivas (advinho que chorar seja proibido na pós-modernidade), na forma de folhas xerocadas e distribuídas aos alunos por-favor,-leiam,-esse-poema-é-maravilhoso e estaria lá, desfolhando o livro, me desfolhando como louca, sendo novamente aquele ipê difícil plantado no meio da sala
roxo ou amarelo?
aí, no meio desta tarefa horrível de escrever um algo-que-funcione, descubro que “afazer”, verbo, é adquirir certo costume ou hábito, um acostumar-se, um habituar-se. neste momento exato ganho a certeza. a tarefa é impossível. este livro nunca será acostumável, inassombrável, afazível. muito menos.. doméstico! respiro. só o impensável é impossível, cochicha o paulo. é bom dar risada das próprias inaptidões. sigo vasculhando o que se passou sob os tufos inconfundíveis de certos cabelos vermelhos
e observo teus truquezinhos gramaticais
: o amor pelos pontos finais, os passados tão passados “Quando aquele lote de terra dura/ fora alinhado/ capinado/ não se adivinhava – nada”, escolhas lexicais escafandristas, as anotações tatuadas por dentro de muito poema que li e vc me conta no déjà vú, esqueço o poema outro, esqueci de dia (e reparou em quanto acento tem “déjà vú”?). dei risada quando li o “decidiu raspar os cabelos/ ela mesma”, na minha cabeça a tradução era “[she] said she would buy the flowers herself”, vícios de más leituras.
aos poucos, o afazer doméstico transforma-se num reconhecer-se nesta cidade aberta, nos cacos de cerâmica (mas vc me dá o “fragmento de louça” bem galante), nas tais zonas de silêncio, nos azulejos que parecem cascos de tartaruga, nos pés enterrados na areia.
e, quer saber, é tão bom estar aqui!, entre imagens amigas, à beira dum fogão, em torno de nós mil personagens e histórias piolhentas, casulos, livros aplaudindo flap-flap, vacas amarelas mugindo,
tar entre tudo que é possível pq a palavra existe
e, durante um instante meu de sorte, é tua
e vc corajosa nos dá então o mundo.
assim, em troca, queria te fazer uma pequena inconfidência (pior que acho que já te contei)
: quando era pequena, tinha ódio das meninas tímidas. me pareciam muito mais espertas. comedidas. quietas. sabidas. já eu era bem tonta e falante. hoje penso que o ódio, na sua burrice extrema, guarda lá uma grande esperteza.
- teu livro é um DESBUNDE, abigail!
obrigada por existir.
meu carinho todo,
ana erre.