a gripe

Gripada como sei lá o quê. A voz seria sexy pela rouquidão, se não fosse fanha. Compromissos todos desmarcados. No liquidificador, sopa de abóbora com canela e gengibre pra ver se melhora um algo.

Li bastante sobre a questão do açúcar. E até tentei ficar uns dias sem comer nenhum titinho. Praticamente impossível. Vc chega em casa desavisada e eis que tua vizinha-linda-de-oitenta-anos aparece com duas tortinhas de doce-de-leite, douradas e saídas do forno. Teu irmão chega de viagem e traz de presente uma geleia maravilhosa de uvas com nozes. No pão, açúcar. No shoyo, açúcar. No afeto, açúcar. Assim caminhamos.

Por lazer, tava lendo sobre essas questões todas. Livros de qualidade duvidosa e outros bons. Faz parte. É um luxo ler literatura duvidosa, imagino que seja a telenovela dos intelectuais. O Sugar Blues do William Dufty é um desses. O cara tem umas histórias bem legais. Mas o livro escorrega em várias coisas, não só na estrutura dos argumentos, mas tem uns chutes sobre alimentação, umas imprecisões que até eu percebo, uma pena, pois o assunto é muito interessante. Tem gente que adora o livro, tudo bem. Gostei muito mais do Sem Açúcar e com Afeto, da Sonia Hirsch – autora sincera, prática, direta.

De minha parte gripadíssima, hoje nem quero desenvolver argumento nenhum. A única vantagem de ser escritora é narrar. Então conto que, por minhas leituras açucaradas, fui a um seminário ali na História ouvir a voz da Sonia Hirsch, o primeiro dia de palestra de Terra, Alimento e Liberdade – O que você alimenta quando se alimenta?, organizado pelo coletivo ComerAtivaMente.

Mal cheguei e, um carro me para, perguntando onde é a FFLCH (como constatou o GG, tenho cara de inofensiva, sempre me perguntam informações na rua). Aponto e descubro que vão ao mesmo seminário. Me pedem, entra no carro e vem conosco? Entro, vamos. Chegando ali, lotado. Bebês engatinham pelo auditório, água, frutas e pão a quem quisesse.

Muito boa a fala do José Ribeiro Jr. E um tato para responder as perguntas da plateia sem soar grosseiro, compartilhando os anseios dos perguntadores. A Sonia Hirsch falou bem segura, de pé, com um sotaque gostoso, pertinho do público. Me encantei absolutamente com o Henrique Carneiro, genial de fala e pensamento.

Um trechinho de um artigo dele que encontrei depois:

“A “guerra contra as drogas”, nascida do ventre da Lei Seca, além de servir para o enriquecimento direto das máfias, das polícias e dos bancos, serve para tornar o corpo humano um território de comércios clandestinos e transportes interditos, vigiado com testes de urina e batidas policiais. A transformação do interior do corpo em jurisdição química do Estado, com o controle aduaneiro das fronteiras da pele, é uma dimensão extrema de intervenção e vigilância sobre as populações”. + na íntegra aqui

Parece poesia. Engraçado que comecei aqui falando de açúcar. Mas bem amanhã tem a Marcha da Maconha, cujos protestos pedem também ‘não jurisdicionem sobre meu corpo’. Tantas Marchas com o mesmo pedido humilde. O corpo, logo ele, o que menos nos pertence.

Espero que, ao menos no domingo, possa fazer cerveja novamente. É o que resta, ficar em casa, gripada, mexendo o caldeirão. Fingir que pertenço a um outro tempo.

 

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