2009: a FLAP! que ouvi

julho 15th, 2009

@anarusche, latest: ufa, listo - escrevi o tal relato da @flap2009. agora espero as fotos. http://migre.me/3Gjp less than 5 seconds ago

(sem formatação decente e sem fotos. ainda)

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Poetas são seres peculiares. E inegavelmente exagerados. Mesmo que essa que te escreve seja assim um pouco. Símon Bolívar foi poeta a incendiar os campos, José Sarney marimbondea de fogo, José Martí cultivou nas páginas rosas brancas aos cruéis e aos amigos sinceros, Saddam Hussein logo verseja “o sangue é barato em tempos difíceis” e diz a lenda que constrói uma cidade no deserto com base em sua própria impressão digital, que colocaria qualquer land artist verde invejoso. Assim partimos do exagero e da falta de probabilidades.

Antes de tudo, a FLAP! 2009 para mim inicia-se como um passeio ligero, na certeza que não colocaria nenhum dedinho na organização do sempre-mais-esperado evento de literatura da cidade – a tão planejada minha aposentadoria de agitadora na beirada dos 30 anos. Mentira. Agora tenho um cãozinho lindo a cuidar. Assim, no primeiro passeio, reencontro a magnífica Ambar e conheço o Euzébio, já instalados com o Daud na mesa da Mercearia, almoço com sotaque mexicano servido de feijão, arroz e salada, com um belo contra-filé e sorrisos. Histórias de Chiapas, de coincidências incríveis na burocracia para vinda dos dois, quem disse que um artista não se faz de pura sorte?

No dia de abertura, livrinha da pressão de trabalhar na tal organização do festival, fiz um cálculo errado de tempo e São Paulo fechou-se como o mar vermelho a engolir ônibus em luzinhas rojas, demorei quase 2,5 horas para alcançar o sopé da Casa das Rosas. Nem entro, sala quentinha, segredaram-me já de cara que a fala do Fréssia e do Paulo Ferraz foram boas e assistimos então ao vídeo que o Domeneck enviou da Alemanha para estar ali – lembro, uma boca, um vidro jateado e perguntas. E logo risos e mexericos na platéia, acompanhando piadas dentro de piadas e esse quadro nervoso de questões dentro de questões, “O caminho da sátira é o único para uma poesia abertamente política? Será tudo culpa do nosso vocabulário ou será tudo culpa de Kate Moss? Podemos aprender com a sutileza política de Machado de Assis e Clarice Lispector? Podemos parafrasear Lispector e dizer: eis que o poeta está feliz, pois finalmente desiludiu-se? Se vivemos um momento pós-utópico, tanto melhor? Vamos começar a escrever uma poesia pré-distópica?”. Sem nada que ver, ontem mesmo na mesa com cerveja após o encerramento do festival, decidimos que o pessimismo é algo dos preguiçosos. E se te perguntassem por um poema de guerra?

Abertura e logo abraços, exclamações carinhosas em español, apertos de bochechas e uma euforia boa. O início de um festival de poesia é idêntico ao seu final: há uma eletricidade no ar, um por acontecer, um alterar a gravidade do que está por dentro. Por isso mesmo, como disse o Caqui, nunca termina, segue adentro.

No dia seguinte, 8 de julho, trabalhei algures, mas soube da palestra do Frederico Barbosa sobre poesia concreta, muy interessante, e cheguei no meio da Passeata Poética, que saiu da Casa das Rosas rumo ao Espaço Zero, cortando toda a Av. Paulista. Os repórteres do Jornal da Tarde deram uma bela matéria com foto sobre o trajeto. O grupo, de tempos em tempos, recitava poemas. Jéssica e a Estátua do Bandeirante, matador-de-índio, em frente ao Trianon; Pablo e a Consolação. Distraídos, Alan e eu incrivelmente nos perdemos do grupo a ouvir uma narrativa da boca de poeta que esteve parado no meio do caminho, sobre reencontros familiares dramáticos, entremeada a cenas de Guerra Fria, ainda generosos copos de vinho. Uma hora então finalmente chegamos ao Espaço Zero. Ali, a surpresa de D. Elvira à FLAP: impressos em grandes adesivos, poemas de muitos que vieram de longe na fachada da Rua Goiás. Assim ocorre a leitura que inicia tudo: o Daud finalmente lê cara-a-cara ao Diego o poema que escreveu a partir do libro Brian. Um tributo e um pago – fora exatamente ali que o Daud recebera meses antes o libro do Diego, que quizás impulsionou tudo isso que vc me lê agora. “Estou lendo Diego Ramírez Gajardo/ não estou lendo estou sendo possuído/ pela escritura desse menino e agora estou/ tão emocionado quanto estaria/ ao ver se apagar a chama que tenha/ consumido uma cidade inteira/ sem que se tenha terminado de queimar todos os livros/ pelo que haverá recordações/ que me farão apaixonado, como já estou

Abraço muito também o Snoo.., aliás, o Fábio Aristimunho, vindo da Tríplice Fronteira, que logo partiria à Catalunha, recebedor de bolsa por seu labor tradutório, ah, viajantes.

Dia 9 de julho, feriado de motivação estranha, no Museu da Língua Portuguesa também não estive, o que mal explica esse relato incompletíssimo e confuso que te apresento. Sei das boas línguas que houve um grande show religioso ao lado do Museu e que a leitura seguia como uma Cruzada, um enfrentamento aos microfones, como que se de tão débil pudesse vencer os alto-falantes, os corações possuídos. De nossa parte, bebemos ali na Vila, a esperar que o grupo voltasse ao QG na Morato Coelho. Seguem cenas de bar, das que sempre esqueço e confundo. Compramos sim um patinho, quéc, para a Paula querida que não pode vir. Ah, sim, e rodízio de carne e logo caipirinhas na casa do Caqui.

No dia seguinte, debate na Casa das Rosas. Piece of cake. Alejandro, Dirceu e yo, debate sobre “Existe um muro entre a poesia e as outras linguagens? A poesia está encastelada no livro ou na palavra?”. Encastelada e logo lembro do my home is my castle e da noção do direito civil de propriedade e a pirataria e a necessidade de furar o livro, paredes de livraria e assim os poetas perdem completamente a idéia do que estão falando, para mencionarem que a poesia está no canto dos pássaros, logo nunca está no canto dos pássaros, discutir como a telepatia é a única forma poética possível e futura, que o belo é o belo e jamais o será, e citam-se que o escultor e o poeta em língua maiense são o mesmo (vide o Euzébio), e ao mesmo tempo nem o são e seguimos como bom grupo de poetas delirantes que somos. Sem termos chegado a nenhum lugar, como compete e nos é de direito, fazemos uma pausa. E a leitura. Com a pirotecnia de laptops, powerpoints, vídeos e imprescindível papel, escutamos o vídeo Rojas do Alejo, trechos do Alerta de Vírus e do Libro de Alan meus, devoramos amarelos com o Icterofagia do Dirceu. A Annita fez uma leitura sem fôlego, exatamente para nos tirar. E a Pilar logo leu poema para seu menino e todos os outros.

Dia 11 é dia de chuva torrencial, fria e pegajosa, dessas que só um país tropical esquecido por deus pode te proporcionar. Um retorno à Praça Roosevelt, onde o festival começou, por acolhimento dos Satyros, 5 anos atrás. Explica-se que aquela rua anexada à coisona de concreto já fora uma praça e teima em comportar-se como praça – a coisona fora o presente aos 416 anos de São Paulo do então nosso douto presidente Emílio Garrastazu Médici, assim se pode ficar caladinho. Bem, na realidade, foi o Faria Lima quem começou tudo, mas fiquemos por aqui, digamos que ali ainda ressoam os acordes do primeiro show da Elis Regina na cidade, foi o berço da parada gay, o final do arco-íris e um pote sem ouro.

E ali, no lugar de retorno, conversamos sobre a notícia difícil – a repressão às manifestações indígenas, quilombolas e caiçaras ocorridas em Paraty durante a FLIP, a apreensão de livros de amigos que planejavam vender seus trabalhos na rua durante a tal festa. Como sempre. Você gosta de poesia? Símbolos vão e vem por nossas cabeças. Já se lembra dos Maloqueiristas e certo chiste sobre a fundação do Brasil – Pedro Tostes carinha de índio, Berimba negro e Caco caiçara. Tudo apreendido durante a FLIP, um exército dos chiques saído de nem sei onde, de estantes, e logomarcas, e escritores estrangeiros goela abaixo, e pessoas marchando no desfile bem vestido, e o do pobre Manuel Bandeira que querem lembrar é da prosa, e quase nem há poetas, nem é preciso. Você gosta de poesia? Às vezes é necessário ocorrer essas minúsculas imensas tragédias para se pensar que o A da FLAP é um tapa, sem nenhuma pelica, um A bronco de bastardia e verdades. Meu ódio é o melhor de mim é Drummond, que dele roubei essa coisa ruim de botar pra fora o que se sente por dentro. Se você escrever, é pra que alguém se cale. Não sou uma babá para dizer coisas por indefesos. Você gosta de poesia? Aí lemos Âmbar-águia, eu, e chovia tanto, chovia tanto.

A noite foi de festa em casa. Com bandeirolas ainda da festa junina, Santo Antonio seguiu segurando um menino na parede a cantar Thriller. Muita gente boa, Sentelhas, que adora conversar com a Marcinha, Vidal rindo comigo de ocorrências rodapescas, a Bruna conta detalhes do que perdi. Ulisses cuida do último pedaço das quatro pizzas com alegria. Logo Amália e fotos com uma penca de bananas. A Valéria sabe todas as músicas da Xuxa. En español, claro. O Pablo já imita uma passista e assim temos uma festa inteira. Acabada no Conexión Caribe, já que há coisas na vida que nunca mudam.

No domingo, o clima de ressaca brava se arrasta e jamais impede que as oficinas do Diego e do Alejandro ocorram com empolgação – escuto também muitos comentários elogiosos. Também querem saber tudo da vida do Alejandro, éres casado, Jessica é sua esposa? Tudo bem me narrado depois entre porções gigantes de yakisoba numa festa de rua na Liberdade. Ali o Diego virou nissei, e dos estilosos. Tudo é sempre uma questão de leitura.

Segunda-feira, dia 13, também retorno ao trabalho e nem compareço à experiência na Fábrica de Criatividade e sarau no Binho. Novamente as narrativas perfazem um panorama e só ouço histórias ricas de mistura e risos e chegamos ao encerramento. Que nos trouxe uma surpresa da Fábrica de Criatividade, o hino nacional brasileiro executado duas vezes com tapas, estalos, sucatas e ginga – uns meninos lindos. Pelo “adôro” e “patata” percebe-se a rápida contaminação portuñolesca alastrar-se, com muito mais força que a gripe dos porquinhos. Antes escutamos a leitura da Jéssica, o Diego e a Valeria. Nada se acaba, nem o parágrafo de Brian que traduzi um trechinho: “nesse deserto branco que já conhece, e se queres me morde, e se queres me queira, mas façamos do estar juntos uma possibilidade, e corremos, subimos desse subterrâneo e tráfico homossexual que se avizinha à Igreja de São Francisco, arrancamos e corremos das travestis maltratadas e ciumentas que nos gritam coisas, porque ainda temos as pernas jovens e o desejo armadinho e o lança. Não tenha medo, Brian, dessas girafas pobres que se penduram nos carros com lança-perfume. É um país violento este, arrancamos num táxi, nos trancamos, voltamos ao início, minha prova de amor esta noite, era não te tocar e aprender a resistir ao amor durmindo ao teu lado, porque esteve desde as sete da manhã vendendo os sanduíches cubanitos, e então você morria de sono, e nos meus braços, por favor./ Seu campo de flores bordado”.

Depois de comer, fui para casa, sem nem me animar a clarear madrugadas. As despedidas são sempre tristes, foi o que me disse depois o Alan, já claro de começo de manhã. Alguém tinha que estar aqui agora. Escrevendo. Porque só isso nos resta, é exagero isso tudo sempre, esse erro na medida mesmo que na busca de um equilíbrio, poetas são todos exagerados. Pois só o exagero pra arrombar os muros do impossível. E a ternura é o pior de nós.


One Response to “2009: a FLAP! que ouvi”

  1. valeria on julho 15, 2009 20:13

    eu adore! saudade. bjn, valeria

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    ana rüsche

    são paulo, brasil

    escritora, 30 anos

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