pra ler com as mãos

novembro 5th, 2009

a partir de http://buraconaarvore.blogspot.com

- hum, árvores de desenho animado sempre têm um buraco no meio.
pensando nisso, risquei uma inteira de grafite,
folhas de prata e papel
raízes cravejadas de suposições firmes

aí, olhando o serviço pronto, espiei aquela letra o de escuro
não agüentei e gritei ali meu segredo mais profundo
aquilo, vc bem sabe
era isso.

olhando pros lados, pensei, temi, logo em seguida, apaguei tudo.

hoje sinto que o papel mente e ainda guarda o meu invisível
no contra-luz é possível ver onde está apagado,
os antigos rios de grafite, agora brancos, são navegáveis por meus dedos
o que antes era traço
agora são traços demais, uns futuros palpáveis como as linhas da mão
meu segredo, minha sorte

e quando a página me olha vazia
sei as verdades - um mal-estar
veja, esse livro que escrevi
e que está em todas as livrarias
esses livros que me pedem, uma dedicatória por favor
esses livros, onde me reconhecem e dizem que é minha cara
todos esses livros gritam, continua ali impresso pra quem quiser tocar
o meu grande segredo, o que nunca apaguei, este que vc tanto sabe.

fico ruborizada.
agora minha sorte é vendida, é portátil e está nas mãos de qualquer um.


2 Responses to “pra ler com as mãos”

  1. Felipe Sentelhas on novembro 6, 2009 1:36

    Ana, acho que ainda não encontrei o jeito certo de fazer esse comentário, então vai do errado mesmo.

    Os espelhos são sempre coisas tristes, feitos para refletir perfeitamente um universo de imperfeições. Não importam os polimentos, banhos de prata e tratamentos com cristal, à superfície refletora caberá sempre e apenas refletir o pó das bochechas, os dentes branqueados e cremes rejuvenescedores.
    Se um dia um espelho se pusesse a refletir o rugoso, em sua face lisa, certamente seria quebrado, acusado de defeito de fabricação, porém a deformação está mesmo no que é refletido.
    Certamente, com medo do canhoto, mataríamos com um punhal esse amontoado de carne pecadora, depravada e macilenta que se encontra na nossa frente, apenas para falecermos, vítimas do punhal-reflexo.
    A lâmina nos enterra o sentimento de asco e é naquele momento que contemplamos nos olhos do feio o futuro repetido que passado sempre nos reservou.

  2. admin on novembro 6, 2009 8:11

    oi, querido!

    claro que vc comentou do jeito certo. putz, adoro o dorian - tanto, tanto… e li quando era ainda pequena. salomé também, por isso a gente fica com essa cabeça de pessoa louca.

    o daud comentou algo bom tb, sobre o último verso,
    “não é ruim, mas talvez fácil demais. Diz pouco diante do que vem antes. Talvez vc quisesse encerrar o poema cedo demais, sentindo que tinha dito mais do que queria, e que ainda seriam precisas duas ou três estrofes pra se resolver”. fiquei pensando que é verdade. eu arreguei (risos).

    vou pensar em vcs dois.
    outro dia faço outra versão do poema e mostro.

    beijo e carinho

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