456

janeiro 22nd, 2010

Legenda Ensaio sobre a Cegueira:
- Que-Cheirinho-de-Cocô-plin-plin!

.

Lembrei que a cidade faz anos na segundona
: ótimo, assim posso não estar aqui.

Do meu grupo de amigos, são poucos os autóctones (roubei da Mme. Denser) - paulistano, sorry, é vocábulo que só cabe em palavra-cruzada. Todo mundo que tem dignidade veio ou volta pra algum lugar mais interessante, sabe isso de terra natal?, tão poético, o Siará da Érica, o interiorrr de tantos…

São Paulo me parece uma grande rodoviária, suja, desorganizada, com modismos próprios, cheia de lojinha com produto que vc nunca viu, nem sabe proquê serve e gente atrasada te dando cotovelada. Saudades do que não conheci pelo Piva.

Y Feliz Aniversáriu, chérizinha, vc sabe que te amuuu. Ahazaaa!

.
Praça da República dos Meus Sonhos

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lento Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

.

(Poema de Roberto Piva - retirei de Em “Paranóia”, Roberto Piva traduz caos urbano de São Paulo, artigo de Martha Lopes. E mil desculpas pela quebra de linhas!, tosquera. )

ATUALIZADO: nossa, acabo de saber pelo Ademir, que o Piva está internado, ohlelê, é muito coisa triste.


8 Responses to “456”

  1. paulom on janeiro 23, 2010 0:30

    seus poemas melhoram, um atrás do outro, mas isto não é um elogio, porque elogio-em-si-mesmo não pode… não pode porque é sinal de… ah! já nem me lembro mais. esqueci-me na praça da república…

  2. admin on janeiro 23, 2010 9:01

    querido paulom, paulo-eme querido, agradeço o elogio-não-elogio, mas vc notou que a praça da república quem desenhou foi o piva, né? just checking.
    ótimo feriadão pra ti

  3. paulom on janeiro 23, 2010 23:58

    hahaha
    desculpe, anar. tanta coisa para ler e tão pouco tempo para tanto. nem sei se no final das contas foi elogio, porque não sei o que vc acha do poema do piva. eu achei bom.
    ok, superado isso: anar só vc (porque nasceu aqui) pode escrever assim sobre são paulo. é a idéia de que só a mãe pode falar mal dos filhos dela a contrario sensu. e isto não tem nada de crítico. é só uma constatação.

  4. paulom on janeiro 24, 2010 0:00

    agora, releia e confesse: há elementos comuns na poesia de vocês dois. vê lá.
    beijo, ótimo feriadão pra ti, se não nos vermos na cerveja que vc vai marcar.
    hehehe

  5. admin on janeiro 26, 2010 10:52

    claro que há. lembra do poeminha do aristimunho?

    BOCA & PLÁGIO

    Barangueiro
    (até) de idéias:
    não fale perto
    senão eu cato.

  6. Renata D. on janeiro 27, 2010 21:56

    Besotes para ti tanbien!

  7. Vera Helena on fevereiro 2, 2010 8:28

    Que interessante! Usei essa palavra há pouco. Aprendi este novo vocábulo, autóctone, com um livro da Kristeva (Nós, estrangeiros para nós mesmos, claro, autóctones versus estrangeiros), e depois o revi no rótulo de uma garrafa de vinho. Hoje, autóctone tem sabor de vinho italiano pra mim, pode!?

  8. admin on fevereiro 2, 2010 9:45

    hehe, que história ótima essa.
    achei no houaiss pra vc:
    “autóctone - (rubrica: lingüística). diz-se da primeira língua que se falou em um país, ou de quaisquer de suas características”
    beijos!

Trackback URI | Comments RSS

Leave a Reply

Name (obrigatório)

Email (obrigatório)

Site (URL)

Speak your mind

    ana rüsche

    são paulo, brasil

    escritora, 30 anos

    twitter: @anarusche

    .

    Contrabandistas de Peluche

    Enquadre-se no Facebox!
    + Vídeos

    La Masa de la Tortilla es la Masa del Amor Homenagem a César Vallejo (Peru), reescritura do poema "Masa" por Alan Mills (Guatemala). Direção: Ana Rüsche, Trilha: "Stranger", Tripsounder. Poema na íntegra aqui ("Ni todos los compadres/ y comadres reunidas,/ soplando balas que parecían/ Burbujas de Amor"), + sobre o projeto | dez 2008

    .

    Feitiço de Natal - Hechizo de Navidad Texto e Vídeo: Ana Rüsche (Brasil), Traducción: Alan Mills (Guatemala), Lectura/Leitura: Alejandro Mendez (Argentina) e Rafael Daud (Brasil), Starring: Soldados Brians (Chile), Trilha: Pol B Binarymind. Poema na íntegra aqui ("Aqui, Onde a Chuva Cai,/ nos proibiram esse ano de nascer o verão") + sobre o projeto | dez 2008

    .

    La Carnicería Punk Sobre a oficina de criação "Moda y Pueblo", em Santiago do Chile, coordenada por Diego Ramírez. No vídeo, versos de Raúl Zurita, Héctor Hernandez Montecinos, Pablo Paredes y da antologia "Frágil" | out 2008

    .

    El Libro de Alan Vídeo para Mostra SESC 2008 | Ana Rüsche, Maurício Kqi Schuartz e Rafael Daud. Projeto eletrônico disponível em www.librodealan.wordpress.com

    .

    Leitura de "Tempo de Guerra" Livraria Conejo Blanco, Cidade do México. Poema na íntegra aqui ("Pega meu corpo de boneca inflável") | nov 2007

    .

    Links internos
    Arquivos
    Real Time Web Analytics