links picados e um trecho de peça

outubro 30th, 2009

Internet com bloqueios é sempre mais interessante - posso ler, mas não comentar. Posso imaginar e não acessar. É como se estivéssemos num imenso aquário, labirinto de vidro, em que se é permitido ver e jamais escutar.

[BLOGUE] Indico os pescados de ontem: a entrevista do Thiago Lins com o Boris Schnaiderman, com direito a café de coador e explicação de pq é importante usar Roberto Carlos ao traduzir Maiakovski. Também é ótima a campanha do Demônio Amarelo Got Book?, em que é possível avistar a Marilyn lendo Joyce e o Eddie Vedder um calhamaço de Umberto Eco - Dirceu, vc não bate bem, o que não é um privilégio apenas teu, vamos deixar bem claro.

[LOBÃO diz...] São Paulo vai bem, obrigada. Evitarei mencionar o mundo cão, com o bom gosto nativo de deixarmos embaixo do tapete o que ali pertence. Gostaria a dizer ao ídolo Lobão, que sua entrevista referente ao Rio vale para muitas terras (embora seja visível que São Paulo é a cidade mais feia do meu mundo). Foto da CPTM ontem às 18h.

[EDITORES] O outro lado da tela. Recebi notícias do México, sobre a apresentação virtual do Rasgada: “(…) en el marco del Festival Pira Fest, que convoca a la exhibición de los trabajos que se desarrollan en asociación o desde nuestro Centro Cultural La Pirámide, tuvimos la mágica presencia, facilitada por las nuevas tecnologías de nuestra autora “súper hi tec” Ana Rüsche quien transmitió desde São Paulo la lectura para un público compacto pero nutrido, sobre todo entusiasta, la trasmisión incluyó la lectura bilingüe del ya famoso poema “Tiempo de Guerra” incluido en el título que presentamos: Rasgada” - nossa querida editora Jocelyn Pantoja conta no facebook sobre as andanças extremamente ativas do Selo Limón Partido pela América Latina.

Sim, um editor é um guerrilheiro. Ainda bem que tenho a sorte de contar com os dois mais pistoleiros que conheço. Considerando que “pisto” também pode ser “dinheiro”, desambiguemos dizendo que eles têm é sangue nos olho mesmo. Aqui da ilha Vera Crux a Terra Brasiliensis, o Vanderley Mendonça dá passadas gigantes e mui precisas - gaste teu dinheiro, leitor, aqui, contenha-se na Cultura.

[NOVO] O que mais? Logo, logo, pela Imprensa Oficial e Satyros Literatura sairá uma coletânea de peças teatrais escritas para o Dramamix (edições de 2007 e 2008), um montão de gente importante. Participo com O Amor nos Tempos de Câmera, peça que eu morro de rir toda vez que leio. Bem, a gente tem um senso de humor estranho, mas creio que é comédia sim. Mando a primeira cena. Acho que é tudo.

(Mentira. Consegui não falar na UNIBAN, essa história me fez muito mal, tenho que digerir melhor)



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O Amor nos Tempos de Câmera (trecho)

outubro 30th, 2009

Cena I. No Banco Ante a Câmera

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VOZ: Não ultrapasse a faixa amarela. Após o sinal da campainha, não embarque no trem. Sua segurança é o nosso direito.

CLARA 1: Ando pelas calçadas como um desperdício. Vesti pérolas falsas e rendas, contudo sou gasta entre ascensoristas, professores universitários, jornaleiros e entrevistas de emprego.

Pausa

CLARA 1: O dia cinza faz-me pensar no amor. E o que será o amor nos tempos de câmera?

SEGURANÇA DO BANCO faz sinal para que Clara tire seus metais e coloque na caixinha antes de entrar no estabelecimento bancário, enquanto a CÂMERA segue seus passos.

CLARA 1: Entro no banco para pagar contas, hoje são as contas as únicas cartas que se lembram de mim. Despeço-me de todos meus metais em uma caixinha, sou inteira plástico e bijuterias.

O SEGURANÇA DO BANCO recolhe a caixinha com os metais e ignora-a. A CÂMERA segue-a. CLARA 1 retoma seus metais após passar pela imaginária porta giratória.

CLARA 1: O Olho repara nos cabelos arrepiados, ainda impregnados de sonhos e o lençol quente, larguei-os cedo demais como mães a deixarem os filhos com a televisão. Pressinto, a máquina me segue! Entretanto, nem a câmera repara ao certo no desperdício de minha beleza bem maquiada para uma manhã de quarta-feira.

Chega-se ao Caixa, estende contas amassadas ao GAROTO ATENDENTE DO BANCO.

ATENDENTE: Sem saldo suficiente, senhora.

CLARA 1: Não tem problema, obrigada, viu? Depois eu pago.

Pausa. Enquanto CLARA 1 guarda suas contas e confere os números e arruma os cabelos, CLARA 2 e 3 despem-se de seus personagens anteriores e discutem o resumo da história de amor mal sucedida…

CLARA 3: Apaixonei-me duas vezes na vida. A primeira foi aos 25 anos, um pouco tarde, e por isso mais letal: considere-se, é uma virose - quando contraída por crianças, sara rápido e deixa marquinhas denunciadoras de charme e personalidade; caso contraída por adultos, adquire resistência e deforma a pele por um tempo.

Pausa

CLARA 3: O objeto da paixão foi um homem raso, como poderia ser diferente?

CLARA 2 (complementando): O fundamental: tratava-me como um acessório.

CLARA 2: Dessa maneira, não houve como resistir… trocamos quilos e quilos de vogais e encontros arapucas por e-mail, evocamos falas de personagens, sovamos dramas minúsculos, tão profundos!, pequenos abismos onde atirávamos pratos na parede.

CLARA 3: Como pode perceber, de imbecil tinha muito pouco, ou talvez muito, entretanto, não há melhor qualificação para esse primeiro amor antigo que esta.

CLARA 2 (complementando): Um imbecil, veja só.

CLARA 3: Na realidade, tudo durou uns poucos meses. Adoeci. Coração aos solavancos frente à perspectiva de encontrá-lo. Chorei compulsivamente ante a negativa de sermos felizes para sempre.

CLARA 2: Considero esse estado uma demência. Ou uma perversidade de comportamento toxicômano.

Pausa.

CLARA 2: A história para ser mais bem narrada teria que ter um começo, mas não há começos interessantes para histórias de amor, normalmente… num eis e estão apaixonados!

CLARA 3: Poderia dizer também que não houve um dia de fidelidade a esse primeiro amor…

CLARA 2:… pois mesmo os acessórios ganham vida própria!

CLARA 3: Sim, admito, fui muito vadia, uma vadia!, durante esses poucos primeiros meses de paixão extremada, como se com as pernas abertas para outros conseguissem tirar aquele ranço melancólico dos ossos.

CLARA 2: Tentativa falha.

CLARA 3: Provavelmente até tenha sido isso que justificou a negativa de abdicarmos de vivermos felizes para sempre.

Pausa. CLARAS 2 e 3 já estão um pouco irritadas. CLARA 1 intervém apaziguadora.

CLARA 1: Outra observação importante é que essa paixão foi heterossexual: entre um homem e uma mulher. Sempre mais sem graça e previsível.

CLARA 3: Pois bem, não havia como dar certo nada daquilo, não obstante meu sofrimento ímpar e a dedicação de todos meus pensamentos àquele primeiro amor. Foram dias e dias entre chocolates, entradas na caixa postal do e-mail, conversinhas com amigos e amigas…

CLARA 2: Pessoas vazias e desconhecidas que, em um átimo de segundo, logo se tornavam conselheiros mediúnicos sobre a natureza humana!: crendices aparentemente sem nenhum sentido, explicavam os fatos como predições do destino e cada fragmento de sentido parecia exarar as pitangas choradas pelo desamor.

Pausa.

CLARA 2: No entanto, esse estado de euforia irracional traz à baila algumas verdades, pois a incapacidade na existência de uma história de amor sequer na vida é uma tragédia sem o trágico. E o que poderia soar absolutamente emancipatório e libertador, torna-se opressivo, obrigatório…

Pausa. As três saem do banco, parecem passear pela calçada sem rumo certo. CLARA 3 finge mendigar moedas.

CLARA 3 (alto): Como você nunca se apaixonou na vida?

VOZ: Pedir esmolas é prática ilegal. Colabore. Denuncie.

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Obs.: rubricas e divisão entre personagens servem apenas para orientar a leitura. Quem montar que se divirta, sinta quem lê. Peça escrita para  o  Festival Dramamix, Satyrianas 2007.

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    ana rüsche

    são paulo, brasil

    escritora, 30 anos

    twitter: @anarusche

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    Contrabandistas de Peluche

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    + Vídeos

    La Masa de la Tortilla es la Masa del Amor Homenagem a César Vallejo (Peru), reescritura do poema "Masa" por Alan Mills (Guatemala). Direção: Ana Rüsche, Trilha: "Stranger", Tripsounder. Poema na íntegra aqui ("Ni todos los compadres/ y comadres reunidas,/ soplando balas que parecían/ Burbujas de Amor"), + sobre o projeto | dez 2008

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    Feitiço de Natal - Hechizo de Navidad Texto e Vídeo: Ana Rüsche (Brasil), Traducción: Alan Mills (Guatemala), Lectura/Leitura: Alejandro Mendez (Argentina) e Rafael Daud (Brasil), Starring: Soldados Brians (Chile), Trilha: Pol B Binarymind. Poema na íntegra aqui ("Aqui, Onde a Chuva Cai,/ nos proibiram esse ano de nascer o verão") + sobre o projeto | dez 2008

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    La Carnicería Punk Sobre a oficina de criação "Moda y Pueblo", em Santiago do Chile, coordenada por Diego Ramírez. No vídeo, versos de Raúl Zurita, Héctor Hernandez Montecinos, Pablo Paredes y da antologia "Frágil" | out 2008

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    El Libro de Alan Vídeo para Mostra SESC 2008 | Ana Rüsche, Maurício Kqi Schuartz e Rafael Daud. Projeto eletrônico disponível em www.librodealan.wordpress.com

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    Leitura de "Tempo de Guerra" Livraria Conejo Blanco, Cidade do México. Poema na íntegra aqui ("Pega meu corpo de boneca inflável") | nov 2007

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