Asfalto
Monto esta vitrine. A memória em seu exercício de leveza. A classificação ágil, de cartões coloridos. Minha coleção de objetos, permanente pesquisa. Os fatos combinando amor e outras coisas quentes. Sentia nos pés o meu abismo. Eu olhava o amor, como quem olha um corpo destroçado após o atropelamento. Os olhos atônitos boiavam, sem destino, no corpo do motorista. Deixou o ônibus e sua âncora. Estranhamente, não gesticulava, não tomava providências, não se defendia, temendo a punição dos patrões. Era agora uma criança e dizia: eu não tive culpa, eu não tive culpa, eu não tive culpa. E esta frase, repetida sem fé, distorcia sua humanidade, porque envolta de catarro e lágrimas que ele não retirava. Desenho da feiúra. Dor feia. O fim do amor está nos olhos soltos do atropelado, nos olhos perdidos do motorista. O impasse do amor é coisa de arena. Briga surda num beco sem luz alguma. Como quem vê o algoz do amor, eu via, de longe, seu gesto incisivo, corte impensado. A primeira faca, insatisfeita, tinha fome. Os golpes seguintes diziam: vingança, medo, ciúme. Sobre nossas cabeças o arsenal de dor e facas. Espetáculo sem assombro, tão útil quanto monótono. O amor.
Eliana Mara Chiossi
Filed under contribuição externa | Tags: Fábulas Delicadas | Comment (0)






