satyrianas - relatório nº ii (final)

novembro 3rd, 2009

O que são as Satyrianas?

Essa ou essa? E me estenderam a latinha, embora estivesse claro que eu queria uma garrafa. Time after time. Sentada ali na Margot, fonezinho nos ouvidos, esperando o Paulo M querido sair da peça. Uma multidão vestida com sangue artificial, estacas de mentira cravadas no coração e olhos tão fundos, corre como rio pela praça, que misteriosamente sempre é uma rua. If you’re lost you can look, and you will find me. Logo mais, Caco vem fazer companhia, muito mais tarde me deu um livro com dedicatória linda, ainda hoje um e-mail, esses mimos da vida. Encontro finalmente o Ivam, astro-rei, e a gente tricota, tricota. Pergunta de um monte de gente, respondo, conta planos, é bom ouvir.

Faz um sol absoluto esses dias. Bem lembramos que finados nos últimos anos foi nublado. Imagino que minha tia Rose, dessas vibrantes, dum olho tão azul, nunca admitira que o dia dos mortos fosse nublado - deve estar agora com a tia Bete, tricotando animadas, fazendo bolo com os anjos.

Me apresento ao Robson. Esse ano não pude ajudar no Café Literário, esses percalços e repousos que vc bem conhece, aí fui falar oi. O também está ótimo, aquela gargalhada, sabe? Disse pra deletar qualquer coisa relativa a Show de Boate que eu tivesse na cabeça. Claro que obedeci. Esse ano as Satyrianas foram tão ordeiras que quase não as reconheço, algo assim, é bom também.

A Nenê veio com vestidinho gracinha e com a Hanna, esta estrelando de fivelinhas combinado com a coleira, educada, simpática (hehe, imagina o Canekolino perto da Hanninha, ele todo viralatão lindão, ela toda peruinha lindinha). O Paulo saiu da peça. A Néle chegou. Agora serão 3 mil bonequinhos de gelo em Atenas. Suponho que as próprias ruínas daqueles templos brancos irão derreter. Faria bem. E logo a Mai, com vestido militante unibanesco (mas pretinho básico, né?), e logo o Daud com a Bruna. O final da noite foi peixe, legumes, já não tirei mais foto.

Acordei bem cedo hoje e sem despertador. De xícara nas mãos, ainda isso do futuro. Como boa bruxa, deveria conseguir enxergar algo, mas é nublado, são apenas linhas compridas, dedos riscando possibilidades, um corpo mais além de qualquer iluminação, um planeta flutuando num rio. Preciso de um título. Urgente. E no particípio. Um que seja tudo, adjetivo, substantivo, uma alteração de verbo. Ah, vc sabe. Fiquei pensando em como é difícil traduzir esse time after time.

do ônibus, passageiro fotografa multidão de zumbis na praça

produção!

Rodolfo, O Chefão

E falando em máfia…

Ivam e yo

Nenê e Hanninha chiques

Caco e Gisa no Rose Velt

A Néle!

Bruna, Maiara e Daud - repara que a foto exterioriza a perda de foco da própria fotógrafa

Mai autografa livro com a caneta-lanterna. Luz, luz, luz.

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satyrianas - relatório nº i

novembro 2nd, 2009

“- eu vou te pegar


isso é um fato,
o resto é futuro”.

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… única coisa que sei de cor, né? Largo o microfone, agradeço e volto ao meu lugar. Aí o cara sentado ao lado logo inquere: é teu mesmo isso? Hum, digo que sim. Podia ainda acrescentar, e faz tempo. Mas deixa pra lá, preciso é criar vergonha na cara e decorar uns poemas novos. Que preguiça. Hehe, foi bem legal a Récita Maloqueirista, sarau ao cair da tarde nos Parlapatões.

Aí fila pra assistir a Velha Apresentadora. Velha que é mezzo-Guzik mezzo-Mirisola. O Mirisola diz que tem medo da velha. O Guzik adora. Eu é que me divirto.

Na fila, o Rui Mascarenhas conta pra gente os perrengue e curiosidades do Pontos de Poesia - sim, o Rui é o tal meiohomem que visitou uns trocentos-e-40 saraus em São Paulo, coisa de gente louca e gênia. A gente dá oi pro Felipe, que não saiu na foto, e pras divas da Cláudia Wonder, Cátia e Phedra de Cordoba - a Phedra diz que tá sempre lendo meu livro. Honra o comentário mais lindo no gerúndio.

Saídos da Velha e devidamente parabenizados senhor Alberto e o Chico Ribas, o ponto, fomos ali pro Bac. Existe sempre um percurso na Praça, é quase uma gincana, sabe? A Bruna comenta: nossa, tô impressionada que vcs conhecem todo mundo. Podia ser um elogio, hj sempre desconfio.

Encontramos o Pedro Toistesch e o Ivanito, ambos ainda querendo colar em sarau, essa gente que nunca bate bem. Contei pra outro Pedro, o filho da Pilar, que a vez mais bonita que vi alguém recitando na minha vida foi ele quando era pequeno - acho que bate o Zurita. É verdade. E agora no último domingo do mês, eles organizam o Encontro de Utopias no Bar Pandora, tamos todos convidado.

O que mais? Que fiquei de umas conversinhas fanfarronas tomando cerveja, já me arrependi e mandei sms confessatório. E por intermédio do Mirisola, conheci o Astier Basílio! Sim, correspondente lá de João Pessoa! Puxa, troco figurinha eletrônica com Astier há tantos anos. Adorei. Hoje levo pra ele um monte de livro, vou separar. Sim, hoje tem mais. Até a Néle vai. Faltou dar beijo no Ivam e no . Mando foto.

Ah, é ótimo o Cake cantando Perhaps, Perhaps, Perhaps, recomendo. Se me permite. E se clicar na foto, elas aumentam.

Caco e Berimba no palco. A luz é do sol.

Dayse-Deise-donadessesorrisolindo!

diii-v-a-s: Cláudia Wonder, Cátia e Phedra de Cordoba

Rui explica pro Daud alguns lances sobre ladeiras e recepções acaloradas

Mirisola pós-velha, com as amigas vindas de Prudente e o Daud, combinando a camiseta verde

platéia com mais de 80 pessoas, tudo assim anjo iluminado de amarelo

Carol, Ivanito e Daud, ali na frente do Bac

Pedro Tostes e Daud

Pedro, Pilar, Daud e Bruna

Astier e yo em encontro antológico!

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O Amor nos Tempos de Câmera (trecho)

outubro 30th, 2009

Cena I. No Banco Ante a Câmera

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VOZ: Não ultrapasse a faixa amarela. Após o sinal da campainha, não embarque no trem. Sua segurança é o nosso direito.

CLARA 1: Ando pelas calçadas como um desperdício. Vesti pérolas falsas e rendas, contudo sou gasta entre ascensoristas, professores universitários, jornaleiros e entrevistas de emprego.

Pausa

CLARA 1: O dia cinza faz-me pensar no amor. E o que será o amor nos tempos de câmera?

SEGURANÇA DO BANCO faz sinal para que Clara tire seus metais e coloque na caixinha antes de entrar no estabelecimento bancário, enquanto a CÂMERA segue seus passos.

CLARA 1: Entro no banco para pagar contas, hoje são as contas as únicas cartas que se lembram de mim. Despeço-me de todos meus metais em uma caixinha, sou inteira plástico e bijuterias.

O SEGURANÇA DO BANCO recolhe a caixinha com os metais e ignora-a. A CÂMERA segue-a. CLARA 1 retoma seus metais após passar pela imaginária porta giratória.

CLARA 1: O Olho repara nos cabelos arrepiados, ainda impregnados de sonhos e o lençol quente, larguei-os cedo demais como mães a deixarem os filhos com a televisão. Pressinto, a máquina me segue! Entretanto, nem a câmera repara ao certo no desperdício de minha beleza bem maquiada para uma manhã de quarta-feira.

Chega-se ao Caixa, estende contas amassadas ao GAROTO ATENDENTE DO BANCO.

ATENDENTE: Sem saldo suficiente, senhora.

CLARA 1: Não tem problema, obrigada, viu? Depois eu pago.

Pausa. Enquanto CLARA 1 guarda suas contas e confere os números e arruma os cabelos, CLARA 2 e 3 despem-se de seus personagens anteriores e discutem o resumo da história de amor mal sucedida…

CLARA 3: Apaixonei-me duas vezes na vida. A primeira foi aos 25 anos, um pouco tarde, e por isso mais letal: considere-se, é uma virose - quando contraída por crianças, sara rápido e deixa marquinhas denunciadoras de charme e personalidade; caso contraída por adultos, adquire resistência e deforma a pele por um tempo.

Pausa

CLARA 3: O objeto da paixão foi um homem raso, como poderia ser diferente?

CLARA 2 (complementando): O fundamental: tratava-me como um acessório.

CLARA 2: Dessa maneira, não houve como resistir… trocamos quilos e quilos de vogais e encontros arapucas por e-mail, evocamos falas de personagens, sovamos dramas minúsculos, tão profundos!, pequenos abismos onde atirávamos pratos na parede.

CLARA 3: Como pode perceber, de imbecil tinha muito pouco, ou talvez muito, entretanto, não há melhor qualificação para esse primeiro amor antigo que esta.

CLARA 2 (complementando): Um imbecil, veja só.

CLARA 3: Na realidade, tudo durou uns poucos meses. Adoeci. Coração aos solavancos frente à perspectiva de encontrá-lo. Chorei compulsivamente ante a negativa de sermos felizes para sempre.

CLARA 2: Considero esse estado uma demência. Ou uma perversidade de comportamento toxicômano.

Pausa.

CLARA 2: A história para ser mais bem narrada teria que ter um começo, mas não há começos interessantes para histórias de amor, normalmente… num eis e estão apaixonados!

CLARA 3: Poderia dizer também que não houve um dia de fidelidade a esse primeiro amor…

CLARA 2:… pois mesmo os acessórios ganham vida própria!

CLARA 3: Sim, admito, fui muito vadia, uma vadia!, durante esses poucos primeiros meses de paixão extremada, como se com as pernas abertas para outros conseguissem tirar aquele ranço melancólico dos ossos.

CLARA 2: Tentativa falha.

CLARA 3: Provavelmente até tenha sido isso que justificou a negativa de abdicarmos de vivermos felizes para sempre.

Pausa. CLARAS 2 e 3 já estão um pouco irritadas. CLARA 1 intervém apaziguadora.

CLARA 1: Outra observação importante é que essa paixão foi heterossexual: entre um homem e uma mulher. Sempre mais sem graça e previsível.

CLARA 3: Pois bem, não havia como dar certo nada daquilo, não obstante meu sofrimento ímpar e a dedicação de todos meus pensamentos àquele primeiro amor. Foram dias e dias entre chocolates, entradas na caixa postal do e-mail, conversinhas com amigos e amigas…

CLARA 2: Pessoas vazias e desconhecidas que, em um átimo de segundo, logo se tornavam conselheiros mediúnicos sobre a natureza humana!: crendices aparentemente sem nenhum sentido, explicavam os fatos como predições do destino e cada fragmento de sentido parecia exarar as pitangas choradas pelo desamor.

Pausa.

CLARA 2: No entanto, esse estado de euforia irracional traz à baila algumas verdades, pois a incapacidade na existência de uma história de amor sequer na vida é uma tragédia sem o trágico. E o que poderia soar absolutamente emancipatório e libertador, torna-se opressivo, obrigatório…

Pausa. As três saem do banco, parecem passear pela calçada sem rumo certo. CLARA 3 finge mendigar moedas.

CLARA 3 (alto): Como você nunca se apaixonou na vida?

VOZ: Pedir esmolas é prática ilegal. Colabore. Denuncie.

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Obs.: rubricas e divisão entre personagens servem apenas para orientar a leitura. Quem montar que se divirta, sinta quem lê. Peça escrita para  o  Festival Dramamix, Satyrianas 2007.

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    ana rüsche

    são paulo, brasil

    escritora, 30 anos

    twitter: @anarusche

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    Contrabandistas de Peluche

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    + Vídeos

    La Masa de la Tortilla es la Masa del Amor Homenagem a César Vallejo (Peru), reescritura do poema "Masa" por Alan Mills (Guatemala). Direção: Ana Rüsche, Trilha: "Stranger", Tripsounder. Poema na íntegra aqui ("Ni todos los compadres/ y comadres reunidas,/ soplando balas que parecían/ Burbujas de Amor"), + sobre o projeto | dez 2008

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    Feitiço de Natal - Hechizo de Navidad Texto e Vídeo: Ana Rüsche (Brasil), Traducción: Alan Mills (Guatemala), Lectura/Leitura: Alejandro Mendez (Argentina) e Rafael Daud (Brasil), Starring: Soldados Brians (Chile), Trilha: Pol B Binarymind. Poema na íntegra aqui ("Aqui, Onde a Chuva Cai,/ nos proibiram esse ano de nascer o verão") + sobre o projeto | dez 2008

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    La Carnicería Punk Sobre a oficina de criação "Moda y Pueblo", em Santiago do Chile, coordenada por Diego Ramírez. No vídeo, versos de Raúl Zurita, Héctor Hernandez Montecinos, Pablo Paredes y da antologia "Frágil" | out 2008

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    El Libro de Alan Vídeo para Mostra SESC 2008 | Ana Rüsche, Maurício Kqi Schuartz e Rafael Daud. Projeto eletrônico disponível em www.librodealan.wordpress.com

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    Leitura de "Tempo de Guerra" Livraria Conejo Blanco, Cidade do México. Poema na íntegra aqui ("Pega meu corpo de boneca inflável") | nov 2007

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