crônicas de passarinhos

I. Tava bolando este texto antes de dormir. Aí lembrei de dois periquitos que tinha quando adolescente – a Chiquita e o Zezinho. Ganhei de meu tio. Um desconsolo isso de passarinho na gaiola. Amava muito eles. Um dia, por descuido da estabanada aqui, a Chiquita fugiu. Fiquei com medo dos gatos da vizinhança, dela não saber voar direito. Tive sonhos ruins. O Zezinho ficou sozinho. Tremia e arrulhava baixinho. Não sei o que aconteceu com ele. Minha mãe o levou para algum lugar em que havia outros periquitinhos. Passarinhos me trazem lembranças assim. Dormi mal de ontem pra hoje.

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II. Na sexta, desci para o passeio habitual do cão. Encontrei as duas gatas que vivem brigando na entrada do prédio. Com rabos desenhando esses, em rara harmonia. Bem estranho. Quando olho pra trás, vejo um passarinho encurralado. Gordinho. Achei que estava com algo quebrado. Não estava. Era só um filhote que não sabia voar ainda direito. O cão fez o papel de expulsar as gatas. Consegui colocar o passarinho no meu agasalho. A passarinha-mãe tentou me atacar. Joguei o bichinho numa moita. Não sei se sobreviveu.

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III. Acordo no sábado com um barulho forte. Morta de preguiça, levanto para ver o que havia. Descubro que não é da vizinha. Nem da cozinha. Parece ser na sala. Gelei. Caramba, pelo barulho, deve ser um rato. O cão segue dormindo. Espio de longe. Como iria combater um rato ali? O estrondo novamente. Pulo de susto. Na janela, descubro: um passarinho bate a cabeça contra o vidro. Com tudo. E fica tonto no beiral. Repete a operação. Que gente doida! Abro a janela e coloco a tela. Funciona. Ele voa para outros ares gritando. Deve achar que a janela é um portal para a outra dimensão.

Depois percebo que é culpa do reflexo da araucária. Mais tarde, vejo o passarinho (ou outro?) bicando o capô de um carro. Devem estar fascinados pelas imagens. Ou é fome? Imbuída dum sentimento grande, antes de dormir, deixo umas bananas picadas no beiral da janela. Nem as formigas tocam nas frutas. Acordo com o pássaro dando cabeçadas no vidro novamente. Domingo não é dia fácil pra ninguém.

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