Atwood e o tema do dinheiro na distopia “O conto da Aia”

Encontrei este trabalhinho na minha caixa de correio esses dias. Foi feito há sete anos, enquanto cursava o doutorado para uma disciplina que discutia a obra Filosofia do dinheiro do Georg Simmel.

Vendo que o interesse pela obra da Atwood só cresce, resolvi compartilhar o trabalho com algumas edições para facilitar a leitura. Vai que este trechinho de análise ajuda alguém.

Comento como o dinheiro aparece na distopia.

(Fiquei matutando ainda: parece que discussões financeiras são terreno cultural masculino. Mas se a gente pensar na literatura, é impressionante como as mulheres param para pensar no tema. Claro! É algo vital à independência, sobrevivência. Lembrei rapidinho dos romances da Jane Austen, Um teto todo seu da Virginia Wolf. Tantos estereótipos para se mudar, Dyva minha…)

 

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A aparição do dinheiro no livro The Handmaid’s Tale

Texto produzido em 2011

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“A sanidade é um bem valioso: eu a amealho e guardo escondida, como as pessoas antigamente amealhavam e escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente quando chegar a hora”

O Conto da Aia, Margaret Atwood, 1985, trad. Ana Deiró.

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Disseram que seria temporário”

O Conto da Aia, publicação da escritora canadense Margaret Atwood de 1985, apresenta os infortúnios de uma norte-americana branca de classe média que tem a vida completamente alterada por um golpe de estado que bane gradualmente todos os direitos das mulheres. Os Estados Unidos da América agora se chamam República de Gilead:

“Foi depois da catástrofe, quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o Exército declarou estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos. Mantenham a calma, diziam na televisão. Tudo está sob controle. (…) Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer um tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção. Não havia mais um inimigo que se pudesse identificar”.

Nesta ficção, as poucas mulheres férteis que sobraram no planeta – as “Aias”, como é o caso da narradora – tornam-se gradualmente propriedade do Estado. A primeira parte do livro, que ocupa cerca de 90% da brochura, constitui-se de um relato, narração em primeira pessoa, em tom memorialístico, entrecortada em episódios, cujo assunto é o cotidiano e as lembranças da aia Offred.

Primeiro as Aias são confinadas em um centro de instrução para que entendam suas tarefas nesta nova sociedade. Após, são distribuídas às famílias abastadas para que participem de um complexo ritual religioso para a procriação humana. Inclusive o nome da narradora, no original Offred, é um patronímico para designar “of Fred” (“de Fred”), referindo-se ao homem que serve. Uma vez que consegue parir uma criança saudável, é realocada para outra família.

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Sistema financeiro na distopia: do padrão dólar a fichas

É fato que merece destaque a menção ao dinheiro durante o livro. Uma das maneiras da autora construir a República de Gilead literariamente é criar um novo sistema monetário.

Antes da revolução descrita no livro, havia o padrão dólar. Após a revolução, as mulheres têm as contas bancárias fechadas e transferidas para controle dos homens.

Dessa maneira, o padrão dólar é convertido a um novo padrão monetário: as mulheres só têm acesso a fichas que contém as mercadorias que podem comprar desenhadas, pois a circulação do dinheiro está na mão dos homens.

Notável perceber que a narração em primeira pessoa não detalha como é feita a circulação do dinheiro nesta nova República de Gilead, pois apenas temos o ponto de vista restrito da aia.

Cito três passagens que ilustram a maneira pela qual Margaret Atwood trabalha formalmente o tema. Acrescento ainda que há várias outras menções ao padrão monetário no romance, mas separei as que eram pertinentes à presente análise.

Na primeira passagem, temos a narradora conversando com a melhor amiga, Moira, lésbica e feminista, a respeito da privação do dinheiro às mulheres imposta pelo novo governo norte-americano:

“Levantou-se, foi até a cozinha, preparou dois uísques para nós, depois voltou e se sentou, e eu tentei lhe contar o que tinha acontecido. Quando terminei, ela me perguntou: você tentou comprar alguma coisa com o seu Compucartão hoje?

Tentei, respondi. Também lhe contei aquilo.

Estão congelados, disse ela. O meu também está. E o da nossa organização também. Todas as contas femininas e não as masculinas. Foi só apertar alguns botões. Estamos bloqueadas.

Mas eu tenho mais de dois mil dólares no banco, argumentei, como se minha conta fosse a única que importasse.

As mulheres não podem mais possuir bens, disse ela. É uma nova lei. Você ligou a televisão hoje?

Não, respondi.

Pois disseram isso. A notícia está em toda parte. Ela não estava chocada, como eu. Por algum estranho motivo, estava alegre, como se já esperasse aquilo há algum tempo; como se o tempo agora lhe desse razão. Parecia até mais bem disposta, mais decidida. Luke pode usar a Compuconta dele para você, disse ela. O seu número vai ser transferido para ele. Pelo menos, é o que dizem. Para o marido ou parente do sexto masculino mais próximo.

Mas e você?, perguntei. Ela não tinha ninguém.

Eu vou para a clandestinidade, disse ela. Alguns gays podem assumir os nossos números e nos comprar as coisas de que precisamos.

Mas por quê?, eu quis saber. Por que eles fizeram isso?

Não nos cabe perguntar por que, disse Moira”.

A segunda passagem ilustra a forma pela qual as mulheres recebem fichas para comprar as mercadorias:

Apanho as fichas da mão estendida de Rita. Elas têm desenhos das coisas pelas quais podem ser trocadas: uma dúzia de ovos, um pedaço de queijo, uma coisa marrom que passa por bife. Coloco-as no fecho éclair da minha manga, onde sempre guardo o meu salvo-conduto”.

A terceira passagem aponta o grande controle a que são submetidas as Aias no ato de fazerem o abastecimento das casas – aponta-se a existência de um sistema central de controle sobre a circulação destas fichas:

“- Quietas – diz um dos Guardiões atrás do balcão e nós nos calamos como colegiais.

Deglen e eu chegamos ao balcão. Entregamos as nossas fichas e um dos Guardiões digita nossos números no Computado, enquanto o outro nos passa as nossas compras, o leite e os ovos”.

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Moedas de uma única face: vale-coisas

É de chamar atenção a astúcia de Margaret Atwood para constituir, em sua ficção política, um sistema monetário que possa espelhar as relações de dependência total e fragilidade das mulheres nesta nova República.

Em sua ficção, apenas as Aias são detentoras de algum tipo de moeda – as outras mulheres nem isso detêm – pois são as autorizadas para saírem e fazerem compras. Como são propriedades do Estado, estas Aias, além de serem destinadas à procriação da humanidade, possuem alguns direitos de ir e vir, sempre mediados pela forte estrutura policial.

Vejamos um dos fragmentos escolhidos para a análise. Neste trecho é narrada uma das saídas da narradora, a Aia Offred, em seu passeio para fazer o abastecimento da casa a que serve:

Apanho as fichas da mão estendida de Rita. Elas têm desenhos das coisas pelas quais podem ser trocadas: uma dúzia de ovos, um pedaço de queijo, uma coisa marrom que passa por bife. Coloco-as no fecho éclair da minha manga, onde sempre guardo o meu salvo-conduto”.

Uma moeda possui duas faces por um bom motivo – ambas são indispensáveis, segundo Keith Hart. O dinheiro seria, ao mesmo tempo, um aspecto das relações entre pessoas e uma coisa separada das pessoas. Em uma das faces, consta a coroa, que simboliza o garantidor ou a ordem estabelecida àquele valor; na outra face, o numeral que designa a quantidade:

“Uma [das faces da moeda] carrega a autoridade virtual do Estado; um ícone da sociedade, a unidade monetária. A outra exprime que o próprio dinheiro é uma mercadoria para si mesmo, emprestando precisão para o comércio; é uma coisa real”.

Por exemplo, no caso da moeda de R$ 0,50, vemos, no anverso, a efígie representativa da República, ladeada por representação estilizada de ramo de louros, com a inscrição “Brasil”. No reverso, a inscrição indicativa de valor, ladeada por ramos de louros, com os dísticos “centavos” e o correspondente ao ano de cunhagem. Em outro exemplo, no caso do Euro, há uma face comum e uma face do país onde a moeda foi cunhada.

Quando Atwood decide destinar às Aias um proto-papel moeda, em que não há uma face desenhada, apenas a coisa pela qual pode ser trocado, é como se o olhar do Estado se fechasse a estas mulheres, limitando a troca, retirando exatamente o caráter de símbolo puro do dinheiro para transformá-lo somente em um vale-coisa.

Para as mulheres, nesta sociedade, retrocede-se na “tendência a se renunciar a utilizar o pano como pano” (ou seja, a substituir o pano por uma moeda de ouro), na constituição simbólica de uma moeda como ferramenta e vazio de conteúdo: o que as Aias perderiam com esta substituição é exatamente a pertença como sujeitos neste novo Estado.

Como a função primordial do dinheiro poderia ser descrita como manter os rastros das memórias percorridas pelas trocas, lembrando-nos da etimologia da palavra moeda, que apesar de também se referir à cunhagem (no francês, monnaie), refere-se à memória. Este sentido etimológico está presente na italiana moneta, alusão à deusa da memória, epíteto de Juno (em latim, Iūno Monēta), também identificada com a deusa grega Mnemosyne.

No romance, o controle a respeito dos “rastros” das memórias das trocas é feito pela autoridade posta, os Guardiões, por meio de um sistema eletrônico de verificação: “um dos Guardiões digita nossos números no Computado, enquanto o outro nos passa as nossas compras, o leite e os ovos”.

Conforme podemos ver na Filosofia do dinheiro de Simmel, a presença de um controle estatal central sobre este papel moeda e de suas transações é necessária para que haja confiabilidade.

Simmel oferece-nos dois bons exemplos sobre a necessidade desta construção da confiabilidade – tanto no que se refere ao limite à fabricação das moedas, quanto a quem seria o garantidor de seu valor. Em Gênova, no ano de 1673, a moeda tornou-se desacreditada, obrigando as transações serem realizadas com letras de pagamento e câmbio. Também um estadista, no século XVI, sugeriu a utilização de ferro para cunhar, já que com a crescente vinda de prata da América, possivelmente este metal se tornaria menos especial.

Quando os Guardiões conferem o papel moeda das Aias, este círculo de confiabilidade se fecha, proporcionando a troca e a compra de mercadorias. Verifica-se então, que não há autonomia a ser construída pela simples detenção do papel-moeda, é necessária ainda uma segunda etapa para que se oficialize o papel moeda. Este controle aponta a total sujeição das Aias e de outras mulheres ao Estado para adquirem quaisquer meios de subsistência.

Estas observações são claramente ressaltadas na primeira passagem escolhida nesta análise – quando se descreve o momento que todas as contas bancárias das mulheres são bloqueadas (“Estamos bloqueadas”, afirma Moira).

Retirar o poder de manusear o dinheiro e dele dispor torna, nesta nova sociedade, as mulheres completamente dependentes – tanto em termos de fatos, quanto em termos simbólicos. Não é à toa, que é neste momento da narrativa que a personagem Moira entra para a clandestinidade: sendo lésbica e ativista feminista conhecida, nada mais lhe resta de esperanças de existir sendo vista como um sujeito perante a sociedade.

Em Gilead, a unidade produtiva do lar ratifica o valor social do trabalho doméstico como confinamento, sendo cada uma das mulheres classificada conforme o padrão patriarcal teocrático, com grande repressão hierárquica – esposas, servas, aias, etc. A trabalhadora aia, com seu útero sadio, possui uma mercadoria rara a ser produzida: um bebê, a ser destinado a outros pais. Logo que desempenha seu trabalho, muda-se de lar

Reconhecemos, em The Handmaid’s Tale, a distopia feminista, e por isso mesmo, é possível recuperar a importância de se repensar o ambiente doméstico e as relações familiares que ali se consolidam, consideradas como normais e despidas de antagonismos.

 

 

Bibliografia citada

ATWOOD, Margaret, O Conto da Aia, trad. Ana Deiró, São Paulo, Rocco, 2006.

ATWOOD, Margaret. “Aliens Have Taken the Place of Angels”, artigo publicado no Guardian.co.uk. Guardian Media Group, 17 June 2005. Web. 21 May 2009.

HART, Keith, The Euro: A Challenge for Anthropological Method, disponível em: http://thememorybank.co.uk/papers/the-euro-a-challenge-for-anthropological-method/.

SIMMEL, Georg, A Filosofia do Dinheiro, tradução de Antonio Carlos Santos, versão provisória cedida para circulação apenas no âmbito da disciplina.

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Leia mais

+ Tese que defendi trata do livro, Utopia, feminismo e resignação em The left Hand of Darkness e The Handmaid’s Tale, Universidade de São Paulo, 2015.

+ Margaret Atwood – de quando o real supera a ficção – matéria de capa para o Suplemento de Pernambuco, dez, 2017.

+ Revista Tpm. Como pop vê o futuro da mulher. O futuro feminino está mais para distopia ou utopia? Convidamos cinco especialistas para listar obras da cultura pop que abordam o assunto. Participo ao lado de especialistas de outras áreas: Anne Quiangala e Dani Razia (integrantes do site Preta, Nerd e Burning Hell), Gabriela Franco (editora-chefe do site Minas Nerds) e a glitteriosa Renata Corrêa (roteirista e escritora). Matéria de Carol Ito, abril, 2018.

+ O termo escritora feminista para Atwood nos anos de 1970: “Elas estão dentro, olhando umas para as outras, enquanto eu estou do lado de fora”.

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