Mais zzz, menos buzz: por uma vida mais reflexiva

É a segunda vez que tento escrever este post. Minha maior dificuldade era o tom: seria um pensar alto?, um conselho para si mesma?, recomendações a outras pessoas? Certamente meu desejo era o último, só que rejeito a embalagem democrática da linguagem da autoajuda. Bobeira minha.

Resolvi dando um outro título para o gênero “autoajuda” e distrair meu superego enquanto termino o texto:

Este texto é um conselho de tia

De alguém quase nos 40, que trabalhou como estagiária na sessão de cartas e fax a clientes, dois métodos de comunicação em vias de extinção em escritórios de advocacia. De alguém que ama o símbolo da fita K7, tesouro da adolescência. De alguém que, nesta época de ano, gravava CDs para as amigas da faculdade – 12 canções era o que cabia em um CD, que eu decorava com corações e tipografia fofinha com aquelas canetas com cheiro de álcool.

Sou filha de um programador de mainframe dos anos 1970, aquelas máquinas do porte de um dinossauro que precisavam ser refrigeradas para funcionar direito, computadores que podiam fundir a cuca fazendo cálculos.

(Uma história engraçada da infância ocorreu quando me perguntaram a profissão do meu pai: respondi que era “analista de sistema solar”, afinal de contas, aos 8 anos, o único “sistema” que conhecia era o solar. Demorei alguns anos para entender as risadas de pessoas adultas que escutaram minha resposta).

Sempre me incutiram a preciosa ideia de que a máquina serve a nosso propósito e não o oposto.

Diário de campo: será possível levar uma vida mais reflexiva?
Com mais introspecção, alegria, utilização sábia da tecnologia?

.

O celular não está demais?

O conselho de tia começa com uma afirmação que escutei. Em um único, dia duas vezes: “o celular está demais”.

O celular é uma preciosa caixinha mágica portátil que nos conecta com novas experiências, pessoas queridas, nos informa sobre trânsito, meteorologia, nos facilita compras e debates.

Só que acredito que o uso imoderado do celular anda sendo utilizado em favor da máquina, sabe?

Me preocupa algo que observo quando dou aulas – são aulas particulares ou cursos de criação literária: a dificuldade em encontrar momentos de tranquilidade nas vidas por aí. Muita gente queixa-se de ansiedade.

Perguntas retóricas e considerações.

Não temos que nos desdobrar para atender as solicitações da máquina. Será que você precisa atender a qualquer apito de notificação? Mais gostoso seria aproveitar uma conversa ou mesmo provar a comida quentinha em sua frente. Um comentário de uma pessoa que você viu esses dias ou de alguém que não vê desde a quarta série certamente pode esperar algumas horas.

Não temos que nos resumir aos assuntos que a máquina nos traz. Reparou que muita gente somente comenta o que viu nas redes? Tudo bem encontrar alguém e fofocar sobre o último baphão, é bem divertido mesmo. Só que pautar quase todos assuntos que conversamos pelo que assistimos na timeline é bem estranho, não acha? Nada de novo no front, é semelhante ao que ocorria com quem assistia muita televisão nos anos de 1980. Agora em uma versão mais sofisticada.

Menos buzz, mais zzzz. Buzz é a palavra que traduz algo excitante, hype, de uma fofoquinha a notícias quentes, a última moda que acaba de surgir. O zumbindo da mosca que pintou pra lhe abusar. De uns tempos para cá, tento analisar o canto da sereia do buzz. Respiro e penso antes de mergulhar em discussões que, no minuto anterior, não me diziam respeito. Quando você se der conta que é impossível se atualizar de tudo, provavelmente não atenderá ao buzz imediatamente. Exerça sua preguiçazzz…, patrimônio brasileiro.

Nunca mergulhar na rolagem do celular até o fim do oceano. Se começo a fazer isto, paro para pensar: do que estou fugindo? Qual o motivo de fazer isso agora? O que me aconteceu, alguma preocupação me visita?

Desliguei notificações, faça o teste. Te juro, nada acontece. Claro que você pode/deve abrir exceção para tua mãe, um irmão querido, amor da tua vida, teus filhotes, uma chefia de projeto urgente. Ou seja, encare como exceção. É incrível, mas você perceberá que não perderá um e-mail importante. Não perderá uma mensagem no inbox ou no whatsapp. Geralmente, em nossa rotina, já reservamos um momento para isto. Com o acréscimo do essencial: verá quando você puder, quando quiser, lerá em seu tempo. Inclusive responderá com mais qualidade. Afastemos a urgencialização do mundo.

A máquina deve servir a nosso propósito e não o oposto. Interessante que, depois que desliguei notificações, os aplicativos piram e ficam gentilmente me lembrando da “importância” de dar voz ao buzz novamente, hehe. Parece que temos um jogo de braço aí.

Jamais se desculpe se ficar offline. Se não for algo da listas das exceções, encare como um direito teu.

 

Será que não é hora de usar o troço a teu favor?

A segunda parte do conselho de tia é um convite. Daqueles que chegam acompanhados de chá de cidreira e bolo de limão.

Será que não seria legal aproveitar esta passagem de ano para repensar teu uso do celular? Não remover o celular da vida, dietas restritivas nunca funcionam (há gente que faça uns retiros). Seria mesmo se analisar e se modificar aos poucos.

Exemplos de tipografias em bullet journal. Por Nea Salo, Wikicommons.

Por exemplo, adoro cozinhar – na falta da K7, utilizo o celular ao meu favor e peço ao aplicativo uma trilha sonora para dançar enquanto cozinho.

Também curto fazer diários e manter anotações a mão. Peço ao celular me mostrar tutoriais de bullet journals, a internet tem tudo! Aprendo com vídeos de adolescentes de outros países técnicas para organizar ideias e aprimorar a caligrafia.

Para trabalhar, prefiro escrever diretamente no computador (geralmente mantenho um rascunho, esboço ou diário do projeto manuscrito em paralelo). Uso o pomodoro timer no celular e afasto interrupções a cada 25 minutos. Técnica boa para resolver pepinos com prazo.

Passear com meu cão é das grandes felicidades da vida. Um aplicativo me faz o rádio e me diz se irá chover à tarde.

No twitter, descubro novas leituras com pessoas que nem conheço pessoalmente e as considero pacas. Muitas vezes, já baixo no Kindle para ler depois. Ler como nos velhos tempos, o livro e eu, sem o buzzz perturbador.

No facebook, fico sabendo das leituras em que poetas que adoro foram. Digito o símbolo de maior e o número 3. Isso me dá um quentinho no coração. Leio poemas que postaram em voz alta.

[insira o que vc faz aqui]

Você deve ter um cotidiano complementa diferente do meu. Cada pessoa é de um jeito e possui rotinas distintas. Mas liste as coisas que você faz com a tecnologia a seu favor. São muitas! E maravilhosas!

Há que se mover a máquina em direção à humanidade.

Ou nem se importe, é só mesmo um conselho de tia. Aproveita as risadas, o bolo de limão e o chá de cidreira.

.

+ Algumas reflexões que tinha rascunhado antes reverberaram depois de alguns tweets muito bons que a Yaso compartilhou, como esta reportagem: Para a socióloga norte-americana, Amber Case, devemos dar a nós mesmos “espaços para pensar e vivendo experiências reais”. “Chegamos a olhar o celular entre 1.000 a 2.000 vezes por dia. Temos que começar por redefinir nossa relação com a tecnologia: é uma ferramenta, muito útil, mas tem que nos tornar livres. O celular é o novo cigarro: se fico entediada, dou uma olhada nele. Não mande mensagens vazias de emoção, convide seus amigos para um jantar na sua casa.”

+ “Você é capaz de ir até a loja da esquina sem levar seu smartphone?”, pergunta Frances Booth, autora de The Distraction Trap: How to Focus in a Digital World (A Armadilha da Distração: Como se Concentrar em um Mundo Digital, na tradução livre)

 

 

UA-4597471-4