Resenha: As boas damas, uma novela de Sherlock Holmes por Clara Madrigano

As boas damas: Uma novela de Sherlock Holmesresenha originalmente publicada no Goodreads

As boas damas: Uma novela de Sherlock Holmes by Clara Madrigano
Editora Dame Blanche, 2017

 

O desafio não é simples, considerando que é das mais retratadas em filmes e programas de TV segundo o Guiness, lembrando as atuações recentes de Robert Downey Jr. em filme de 2009 e de Benedict Cumberbatch na série de 2010.

A saída criativa foi envelhecer o detetive e o apresentar frágil, idoso, ranzinza, que oscila entre se aposentar ou resolver mais um caso. O truque para proposta funcionar foi inserir uma narradora: Annabel Watson, filha do parceiro clássico do detetive, o médico Dr. John Watson, agora falecido. A narradora adolescente é criada então por seu tutor, Sherlock.

De maneira muito interessante, a jovem Annabel se desenvolve como uma mulher independente, com ideias próprias e maneiras bem pouco convenientes à sociedade da época. A eterna tensão da relação homoerótica entre Sherlock e Watson também é escancarada no livro e de forma bem construída.

Um dos pontos em que o livro oscila é o respeito ao legado de Conan Doyle. A figura de Sherlock permanece bastante intocada. Para exemplificar, é bem pouco provável que uma adolescente use o chamamento “Holmes” para alguém com quem compartilha tanta familiaridade, quase um tio postiço. Talvez o livro perca um pouco de profundidade com esta espécie de temor reverencial.

Achei curioso observar um efeito de gênero: uma vez que foi inserida uma narradora mulher, o livro saiu do gênero estrito de “romance policial” para desaguar em terror e fantasia, como se a presença de uma outra voz pedisse que a narrativa fosse navegar em outras águas, com heras, clareiras, fadas e seres de outro mundo. Ou seja, esta nova voz pediria uma quebra da racionalidade tão comum nos livros de detetive. Ao mesmo tempo que esta construção narrativa reforça estereótipos de gênero (“mulheres gostam de contos de fada”) a proposta foi bem efetiva em deslocar o detetive de Conan Doyle para outras possibilidades.

Recomendo o livro da Clara Madrigano se você quer embarcar em uma aventura que parece que começa de uma maneira e vai se dirigindo a outros lados!

* * *
Observação: no final, não foi mencionada a Agatha Christie. Ela é referência em romances policiais, nossa Rainha do Crime, que vendeu um absurdo de livros durante a vida – na Wikipedia, diz que somente perde para a Bíblia e Shakespeare, nem sei se o dado é atual, mas é muita coisa. Embora o detetive de Christie seja o baixinho belga Hercule Poirot, ela até chegou a usar narradoras mulheres – cito o clássico “Morte na Mesopotâmia”, no qual a narradora é uma enfermeira, profissional liberal solteira, que viaja a trabalho e foi passar uma temporada no Oriente Médio, ou seja, uma narradora que mostra bastante autonomia em relação a questões como dinheiro e mobilidade. Fica de sugestão para próximas edições :)

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