Resenha: Filhos da Degradação, Felipe Castilho

Filhos da Degradação (Ordem Vermelha, #1)

originalmente publicada no Goodreads

Filhos da Degradação by Felipe Castilho
Intrínseca, 2017

“Ordem vermelha, filhos da degradação” é um primor de livro! Não somente pela forma na qual o livro é construído – trama amarrada firme durante o longo tomo, personagens cheias de vida, reviravoltas e surpresas – mas também pelos temas que suscita: poder e controle.

Talvez o livro possa ganhar você por algumas semelhanças com o universo de Senhor dos Anéis – veremos raças como sinfos, kaorshs, anões, humanos, gigantes (e gnolls, transformados em bestas), um protagonista um tanto frágil de partida, além de uma distinção clara entre o que é o bem e o mal.

Entretanto, as semelhanças param por aí. Untherak é um universo sufocante e claustrofóbico. Qualquer aventura ocorre dentro de seus portões, entre Assentamentos, o Miolo, lugares perigosos, sujos e violentos. Pessoas trabalham em regimes inumanos, com castigos frequentes, torturas.

Una, a deusa que parece tudo controlar, representa um poder que não tem páreo, não parece nunca ter fim, nunca pode ser desafiado. Nas proibições de Una, a cor vermelha. Nas suas ameaças, uma substância que se assemelha a piche, a Mácula. Sua força é completada por um regime marcial. Parece impensável que haja alguma alteração neste cenário de desgraça e abuso. É a respeito disso que a narrativa roda: como conseguir mudar o que parece imutável?

A narrativa então deslancha quando um grupo de personagens de diferentes raças – um garoto que é servo, uma kaorsch, uma humana lutadora, um anão e um sinfo – que irão procurar transpor os preconceitos mútuos que não permite que se vejam como iguais e tentar desestabilizar o regime. Se não fazem por idealismo, fazem para salvar a própria pele.

O livro apresenta uma diversidade grande na construção de personagens – cito a homoafetividade e protagonismo de mulheres com direito a cenas impressionantes de luta (sim, elas também lutam e como!). Esta consciência do autor nos traz um respiro grato diante do panorama da literatura fantástica produzida no Brasil nas últimas três décadas.

O livro é chamado à coragem em tempos sombrios. Trata da importância de tecermos novas narrativas, com outras possibilidades e outras visões. É disto que se faz a literatura.

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