versão corrigida da tese e o edifício da gramática

Estou numa correria louca e não consegui ler todas as respostas aos exercícios criativos que propus. Muito menos deu tempo de fazer com afinco e garra os exercícios criativos que eu mesma tenho que fazer como tarefa de casa do CLIPE. Lamento.

[1] A versão corrigida da tese

Tenho que entregar a versão corrigida da tese e isto me atrapalha bem mais do que gostaria. Descobri que várias pessoas desencanam de entregar a versão corrigida da tese, agora compreendo perfeitamente o motivo: vc empapuça, ué, não quer mais ver aquilo, reler, a porra toda again and again.

Definição do que seja a “versão corrigida da tese”: é uma versão em que vc pode fazer pequenas correções e incorporar coisas que a banca apontou e não estão muito bem no trabalho. Procedimento:

  • No dia seguinte após a defesa, vc tem certeza que vai fazer um extreme make over e vai ficar um trabalho brilhante e irretocável.
  • No mês seguinte após a defesa, vc só quer incorporar as erratas e pedir pro mundo te esquecer.
  • No mês e meio seguinte após a defesa, vc não lembra nem quais são as erratas e quer dar sorte do google não encontrar aquele maldito pdf no mar iluminado do banco de teses capes.

O prazo, geralmente, é de 60 dias, mas as pessoas geralmente deixam pros últimos 10. E nos últimos 3, vc se lembra que tem que encadernar em capa dura, com letras douradas o lance todo*, pegar visto da pessoa que te orientou, gravar CD, etc. Considerando os prazos e procedimentos fefelechentos, estou até um pouco melhor que a média dxs recém-doutorxs que conheço.

No mais, tive contato com a edificante fábula da senhora alemã que defendeu novamente o doutorado aos 102 anos pra corrigir uma injustiça história (ela era judia e os nazis não lhe concederam o título) – uma espécie de versão corrigida da tese advanced. Daí pensei, mano, aguenta o tranco e pronto.

Tudo isso pra explicar meu aparente relapso em ler (e me divertir) com as respostas aos exercícios criativos.

 

[2] A questão gramatical

Também queria fazer uma reflexão sobre os exercícios criativos. O 1º exercício foi bem amplo e filosófico. Daí veio a porradinha sobre verbos. E novamente, o 3º é sobre verbos. O 4º exercício – creio que posso dar spoilers – também será filosófico.

Fiquei pensando se não residia ali uma pequena crueldade em passar questões que mexam com a gramática da frase. Fiquei pensando se não feria o princípio básico do first do no harm. Embora eu tenha a melhorzíssima das intenções.

“Gramática” é a suposta parte chata de escrever. É ali a gaveta de mágoas, onde as pessoas guardam o trauma das broncas de quem te deu aula no primário, do desapontamento no vestibular, das notas baixas, da chefe rasgando a carta mal escrita (passei por isso quando estagiária de direito, espécie de Diabo veste Prada do final dos 1990 – hoje acho bem engraçado, mas rir tb é forma de superar traumas).

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Queria pedir que não fosse assim. Amo de paixão estruturas de frase. Posso ficar horas (e fico!) pensando em um par de versos, dias até. Quase fui pra linguística na faculdade, fui pesquisadora até um tempo da semiótica. E olhe, sou horrível pra escrever. Cometo um milhão de erros, esqueço regências, me distraio, não estudo regrinhas. E mesmo assim, sou apaixonada pelas propriedades que provocam alterações nas estruturas mais profundas da língua.

E queria te contagiar também. É uma questão de perspicácia, de insistência. É quase como cozinhar. Como fazer cerveja para ser mais exata. Quem sabe vc não pira na batatinha também?

Escrever passa por rever esses edifícios gramaticais de sentido.

 

 

Em tempo: deprê total procurar imagem pra ilustrar este post… só charges detonando quem “escreve mal” e “fala errado”. Inclusive, acho feliz o miguxês nível hard, pq discute o lance todo, empodera as pessoas em serem bandidas.

Todo poder às pessoas que digytcham!

Até quando vai ter gente louca se alvoroçando pra ser o luminar da gramática beletrista? Ah, a vida. Um exemplo de ação bonita é esta aqui: em faixas, projeto defende que desobedecer norma culta não é errado.

 

*Indicação: Xerox do Chileno – R. Taguá, Liberdade. Encadernação de teses, monografias, etc em regime de urgência. Pagamento só em dinheiro.
xerox-chileno

 

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