Chapecó: no início, chovia

Chapecó, 7 de maio de 2019.

Querida Vivi,

Estou em Santa Catarina! Nem sei se te contei, mas estou por aqui por conta do projeto Arte da Palavra do Sesc — uma das etapas do projeto é Circuito de Autores, em que pessoas que escrevem viajam a outros estados do país. Ainda esse ano, estarei em Santa Catarina, Espírito Santo, Paraná e Rio de Janeiro. No frio da minha barriga, misturam-se a ansiedade e responsabilidade em participar duma iniciativa nacional dessas.

Meu parceiro de viagens é o Alexandre Leoni, ilustrador. De Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A gente não se conhecia. Podia dar bem errado viajar por tantos lugares com a mesma pessoa, sorteada pelo acaso do destino. Mas o Alexandre é massa, gostei demais de ouvi-lo falar. De camisa, camiseta, calça e tênis, o Alexandre é magro, não muito alto, branco de cabelos cacheados escuros, guardados numa boina que lhe dá aquele visu de artista. Dono de um tipo de uma sabedoria pacata. Supertalentoso, desenha horrores. Manja de personagens fantásticos e de viagens tecnológicas. Deu pra sacar qual o motivo de colocarem a gente pra viajar juntos.

Aqui vai tudo bem. No primeiro dia, ao saber que teria uma tarde livre em Chapecó (peguei um voo madrugador em Guarulhos), planejei fazer uma grande caminhada e conhecer o Ecoparque, atração turística local. A chuva persistente arruinou meus planos esportivos e terminei por fazer o passeio mais paulista do mundo: ir ao shopping. Não é à toa que levei a coletânea “O poema vai à praia e chove” na mala para viajar comigo.

Nosso primeiro bate-papo foi na escola E. E. B. Prof. Nelson Horostecki. Toalha branca de renda posta, classe cheia de alunos. As fala foram sem microfone, diante do respeito bem educado de nossos jovens anfitriões.

Respondemos perguntas articuladas pela mediadora Ana Oliveira, escritora chapecoense. Quando o Alexandre perguntou, “Quem quer ser ilustrador aqui?”, uma mão da plateia se levantou, fazendo uma cobrinha tímida. “Pode levantar, gente”. Daí outras mãos se juntaram ao alto. O Alexandre declarou, “comecei a desenhar na escola”. Depois também confirmei, “comecei a escrever na escola”. A escola é um lugar mágico, mas geralmente as pessoas só descobrem isso ao sair da escola.

Depois da timidez inicial, começou a avalanche de curiosidades de alunos. Muitas perguntas. Uma das estudantes perguntou se eu tinha uma amiga imaginária para criar poemas, falamos então um pouco sobre construção de personagens. Uma outra veio me mostrar seus poemas no Instagram. Foi muito bonito.

À noite, houve um bate-papo na Biblioteca do Sesc. Nossa querida mediadora, Ana Oliveira, esteve novamente à frente com suas perguntas. A biblioteca é charmosa com mobiles de cordéis e outras capas de livro suspensas, nuvens, estantes de madeiras e pufes coloridos. Mais conversas e comentários.

Uma das pessoas na plateia comentou algo que já ouvi antes: “Quando era criança, eu achava que ler muito ia me deixar louca. Assim, eu não queria ler tanto, afinal, eu não queria enlouquecer”. Não deixa de ser uma crença com uma perspectiva interessante. Imagino que ler me deixou menos louca. Porém como saberemos se ainda não conheci uma outra Ana Rüsche em uma realidade paralela em que não leu quase nada?

Enfim, queria que você estivesse por aqui. A equipe do Sesc de Chapecó, Alex e Deise, foram incríveis conosco. Na biblioteca, até teve bolo, pão-de-queijo e café.

Tento me inspirar no teu tato com pessoas mais jovens. Quando voltar, quero sentar num café contigo e a gente conversa com calma. De preferência, no aconchego da chuva lá fora.

Com amor das planícies no Oeste,

Ana R.

No conforto de estar entre estantes na Biblioteca do Sesc de Chapecó.

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