Concórdia e canções marítimas

Série sobre o projeto Arte da Palavra – Sesc 2019

Concórdia, 8 de maio de 2019.

Oi, Álvaro, Andrea, Katia e Mari,

Hoje a carta é para vocês. A última foi para a Viviane Nogueira, enviada de Chapecó, contando um pouco sobre como está sendo essa primeira etapa do Arte da Palavra, projeto do Sesc em que há um circuito de autores.

Concórdia, município de Santa Catarina, é uma terra de araucárias, essas árvores dinossáuricas, cuja origem retroage a 200 milhões de anos. Meu companheiro de viagem, o Alexandre Leoni, disse que há vários trocadilhos possíveis com o nome da cidade, embora eu não seja lá boa dessas coisas. Por aqui, Katia, as pessoas caminham rápido nas calçadas e, nas minhas passadas marciais paulistânicas, me dou bem. Entretanto, os carros param a pedestres e nem sei reagir a tanta gentileza diante da existência alheia.

Hoje nossa atividade foi ir à Escola Pitágoras conversar com estudantes. Tudo isso foi preparado pela equipe ótima do Sesc, Damara e Karen, assim como o corpo docente, Alan e Rosane. Agradeço tanto o cuidado de vocês.

Chegando lá na escola, havia um mural com desenhos feitos a partir de poemas meus. Muitos desenhos. Detalhados, inspirados, mapas, respostas.

Olha, sou firme nas minhas fraquezas, me emocionei até os ossos e chorei um pouquinho. Ainda declarei: “a gente tem que ser muito forte para chorar em público.”

Uma aluna, Isadora, veio me mostrar poemas dela, geniais, com uso de primeira e segunda pessoa no mesmo poema, incrível. Depois começou o bate-papo com as turmas mediado pelo Marcos Antônio Terras. O Marcos tem um canal no YouTube, Palavras. Enquanto escrevo este post, ouço a voz agradável e empostada dele lendo Estas canções que canto floridas do Walt Whitman (me lembrou da nossa conversa com o Escuto a América a cantar na tradução do Scandolara).

O ilustrador que viaja comigo, Alexandre, tem um livro, uma HQ, sobre Fernando Pessoa, A vida oculta de Fernando Pessoa, roteiro do escritor português André Morgado. Vocês podem imaginar: o bardo dos heterônimos, com direito a assassinatos e zumbis, ah, quero ainda muito ler. Daí, em uma das turmas, fiz questão de ler Mar português. Só para terminar com aquela chave matadora:

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

As perguntas de estudantes foram novamente desafios. Como foi se assumir artista para os pais e a família? Quando se considera um poema pronto? Vocês conseguiriam responder? Alexandre e eu enfrentamos as perguntas como pudemos. Ele se saiu com uma boa: “arte é uma das formas de resgatar a nossa humanidade” (não vou contar que ele tb citou o conselho do ET Bilu, “busquem conhecimento”). No final, percebi que as perguntas e as respostas se repetem, uma mandala, um pretexto para se falar sobre a poesia, língua materna da humanidade. Uma conversa que se funde, se mistura, como se fosse tudo um único poema.

Rascunhei um pedacinho de prosa a partir do fecho do Pessoa:

Esse mar, celeiro de monstros e de serpentes que borbulham em segredos, ressaca, tronco, dentes. Submersos em vagas caladas a espelhar o céu. Esse mar, que sempre foi unicamente próprio, soberano, força maior que todas as forças. Minha lembrança mais antiga ao despir guelras, vestir membranas, pulmões, rastejar, caminhar rumo às relvas selvagens, dar as costas à praia, fingir-se ser outro ser. Esse mar, calado na distância que ouço agora ao cerrar os olhos. Esse mar que nunca foi meu.

É isso, queridas e querido, lembrei muito de vocês e de nossas conversas poéticas. A viagem sempre mora aqui dentro.

Termino deixando flores selvagens, araucárias e um cheiro bom de mato.

Um beijo,

Ana R.

Série de postagens sobre o projeto Arte da Palavra 2019:
Chapecó: no início, chovia

Amanhã coloco bonitinhos os créditos da ilustração, sim? O desenho retrata o poema Foi num quando que começa com os seguintes versos “a cirurgia foi um after hours, mas estou acostumada a ir dormir tarde acho que os médicos também”.


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